Jornalismo coragem
- 23 de jun.
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JORNALISMO CORAGEM: Operação Mederi revela que esquema da DISMED fraudou a saúde em mais de 20 municípios e tinha Mossoró como principal "pulmão" financeiro
Uma das maiores investigações recentes sobre desvio de recursos públicos na saúde do Rio Grande do Norte ganhou novos e alarmantes capítulos. Documentos oficiais obtidos pela reportagem, que somam milhares de páginas de representações criminais, quebras de sigilo e interceptações telefônicas e ambientais da Polícia Federal, revelam que a engrenagem criminosa operada pela distribuidora de medicamentos DISMED estendeu seus tentáculos por mais de duas dezenas de prefeituras potiguares.
A audácia e a capilaridade política do grupo ficaram explícitas em um dos áudios capturados pelas autoridades. Em uma interceptação realizada na sede da empresa, um dos operadores da organização criminosa sintetizou o tamanho de sua influência ao declarar categoricamente: *"Eu tenho 15 prefeitos"*. A investigação aponta fraudes licitatórias e o crime gravíssimo de receber pagamentos por remédios que nunca foram entregues à população em cidades como Apodi, Serra do Mel, José da Penha, Paraú e Pau dos Ferros.
#### O papel central de Mossoró e a "Matemática" do desvio
Embora o esquema estivesse pulverizado pelo estado, os relatórios da Polícia Federal apontam que a Prefeitura de Mossoró funcionava como a viga mestra e o verdadeiro "pulmão" financeiro da organização. Entre os anos de 2021 e 2025, o município repassou mais de R$ 13,5 milhões para a DISMED. Esse montante sozinho é superior à soma de tudo o que a distribuidora recebeu de outras cinco cidades da região juntas, respondendo por aproximadamente 59% de todo o faturamento investigado nos autos. Em escutas, os próprios sócios confessaram que, sem o volume financeiro de Mossoró, o negócio não ganharia a escala necessária para lucrar.
No topo da estrutura, os investigadores detalham o que apelidaram de "Matemática de Mossoró". O esquema consistia no desvio planejado de pelo menos 50% dos recursos destinados à compra de medicamentos. Dessa fatia repassada, os diálogos e o fluxo de caixa mapeados indicam a divisão de propinas: 25% seriam destinados ao prefeito Allyson Bezerra e 10% para uma operadora identificada sob o codinome de "Fátima", responsável por receber os valores em espécie. Ao todo, a PF rastreou a movimentação de cerca de R$ 833 mil destinados a esse núcleo específico.
#### Infiltração na Secretaria de Saúde e medidas judiciais
A organização garantia a continuidade dos desvios nomeando servidores de extrema confiança para cargos estratégicos. Mensagens interceptadas demonstraram que os sócios da DISMED já negociavam diretamente com futuras diretoras financeiras da Secretaria Municipal de Saúde antes mesmo de suas nomeações oficiais serem publicadas.
Diante do robusto conjunto de provas, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5) determinou duras penalidades. Os investigados remanescentes cumprem medidas restritivas com o uso de tornozeleira eletrônica, e a Justiça decretou o bloqueio de mais de R$ 13,3 milhões nas contas da DISMED e da Drogaria Mais Saúde para garantir o ressarcimento aos cofres públicos. Os sócios foram afastados imediatamente das funções e as empresas passaram a ser geridas por interventores determinados pelo Poder Judiciário.




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